Blog da Verônica Fraga

 

Mortos íntimos

Em um canto remoto, na Zona Oeste do Rio, trezentas famílias sem teto, com muita vontade de viver, resolveram dividir espaço com os mortos. Ergueram a Favela das Almas, ao lado de um cemitério. Prova de que na luta pela sobrevivência, nem alma-do-outro-mundo assusta.
A comunidade foi construída há 12 anos, bem ao lado do cemitério do murundu. "Não tínhamos escolha. Pobre não tem este privilégio. O medo da escuridão e do silêncio da noite, a gente perde com o tempo", diz o presidente da Associação de Moradores, Ashton Jorge Damasceno.

Destemidos, eles já transitam calmamente pelas covas. Crianças pulam muros para soltar pipa ou brincar de esconde-esconde. E os adultos aproveitam o silêncio para dormir, meditar, reunir amigos e até namorar. “Mais esquecidos que os mortos, essa gente faz do cemitério uma área de lazer”, testemunha o funcionário do cemitério, Edson Braga.
O morador Edson Braga, diz que, à noite não tem ninguém para incomodar. “Namorar com tranqüilidade e ainda de graça, só mesmo aqui no cemitério. Por isso, venho para cá com minha namorada e ficamos juntos numa boa”, conta.

Com o tempo, os mortos acabam sendo companhias mais seguras dos que andam só. Para chegar ao beco onde mora, Marco Aurélio costuma cortar caminho pelo cemitério. “Mesmo que eu tenha que pular o muro, é bem melhor do que andar em volta dele. A rua é muito deserta. Os mortos não podem me fazer mal, já os vivos...".
Enquanto Marco se sente mais seguro no cemitério, os funcionários, porém, andam meio sobressaltados. O vigia Ronaldo Sanches Soares conta que, por causa de um assalto, já esteve literalmente entre a vida e a morte. “Fui amarrado com panos e fiquei horas com um revólver apontado para minha cabeça até os bandidos perceberem que não ia haver nenhum velório na capela e, por causa disso, não teriam mais ninguém para roubar. Mas, o medo que senti naquele dia foi bem maior do que no dia em que escutei a voz de uma mulher morta chamar meu nome três vezes...”
Tirando esses contratempos, a convivência íntima com os mortos pode ser suave e divertida. A presença da morte no cotidiano dos moradores da favela das almas vai muito além das “vozes” que vêm do cemitério. A imagem das vitimais da violência já é tão comum nas cidades grandes, que os túmulos vistos das janelas muitas vezes viram até pretexto para brincadeiras e traquinagens. Evandro Mariano, de 25 anos.
Nascido e criado na comunidade não consegue lembrar da sua infância sem associá-la ao cemitério. Quando era adolescente pregava muita peça nos vizinhos. “Eu roubava tangerinas do quintal do seu Mário e deixava propositadamente um rastro, com folhas e galhos, formando um caminho até o cemitério. Fiz esta brincadeira durante anos e acho que o seu Mário morreu acreditando que eram os espíritos perturbadores que roubavam as frutas”, lembra.
Os espíritos podem já não assustar, mas alguns fenômenos neste contexto, muitas vezes adquirem um sentido medonho. “Uma noite, no cemitério, vi surgir, no meio da escuridão, uma luz avermelhada por trás de uma cova, e fui verificar quem poderia estar se escondendo por lá. No começo, pensei que fosse alguém com uma lanterna. Quando cheguei perto, vi que era uma chama de fogo ardendo, que parecia brotar do chão. Por mais que eu tentasse apagá-la, não conseguia. O que mais me preocupou foi saber que naquele lugar tinha sido sepultado um bruxo, um homem estranho que dizia ter pacto com o diabo”, relata o coveiro Ataíde da Cunha.
O fenômeno visto por Ataíde tem explicação científica. Trata-se do fogo fátuo, processo de decomposição da matéria orgânica dos mortos, que reage provocando combustão. Mas vai explicar? “Na hora, a gente só pensa em assombração”, explica.

Integrado à vida da comunidade, o cemitério já foi usado até como fonte de renda. Mas parece que os donos da casa não gostaram muito. Segundo Ataíde, o último morador que recebeu dinheiro de parentes dos mortos para limpar seus túmulos foi posto para correr. “Todos os dias, um rapaz era pago para colocar flores nos túmulos. Seu último trabalho no Murundu foi cuidar de uma cova de um senhor conhecido como tio Rafael”. A fonte
de renda, porém, só durou até a primeira assombração
aparecer. Um dia, ele ouviu o morto pedir: “meu filho, não limpe mais este lugar. A partir de hoje, não estarei mais aqui”. De lá para cá, o arrumador de covas nunca mais apareceu.


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